A ideia de que todo ser humano tem dignidade, independentemente de força, beleza, utilidade ou origem, nasceu na Bíblia. Ela aparece logo no primeiro capítulo: "Criou Deus o homem à sua imagem" (Gênesis 1:27). Hoje essa ideia parece óbvia. Mas não era. Durante a maior parte da história, o valor de uma pessoa dependia do que ela podia oferecer. Foi a convicção bíblica, espalhada pelo cristianismo, que mudou isso.

O que diz Gênesis 1:27?

O versículo completo diz que Deus criou o ser humano à sua imagem, "à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou". Os teólogos chamaram isso, em latim, de imago Dei.

Repare no alcance. O texto não diz que o rei é imagem de Deus, como diziam muitos povos vizinhos sobre seus soberanos. Diz que o ser humano é. Todo ser humano. Homem e mulher, sem distinção. O faraó e o escravo carregam a mesma marca.

Gênesis 9:6 tira a consequência moral: quem derrama o sangue de um homem será punido, "porque Deus fez o homem conforme a sua imagem". O valor da vida humana não vem do Estado nem da opinião pública. Vem de quem a criou.

Como era o mundo antes dessa ideia?

É difícil para nós imaginar, mas no mundo greco-romano o descarte de vidas frágeis era normal. Não era crime. Era costume.

A exposição de bebês

Na Grécia e em Roma, um recém-nascido não tinha direito automático à vida. Em Roma, cabia ao pai decidir se aceitaria a criança. Se não aceitasse, ela podia ser "exposta": deixada em um lugar público para morrer ou ser recolhida por alguém, frequentemente para ser escravizada.

Aristóteles, na Política (livro 7, capítulo 16), recomenda uma lei para que nenhuma criança deformada seja criada. Sêneca, em Da Ira (livro 1, capítulo 15), menciona com naturalidade que se afogavam as crianças nascidas fracas ou disformes, como se fosse uma decisão racional.

Há um documento comovente. É uma carta em papiro, encontrada em Oxirrinco, no Egito, datada do ano 1 a.C. (Papiro de Oxirrinco 744). Um homem chamado Hilarião escreve à esposa, que está grávida. Com carinho, pede que ela cuide do filho que já têm. E acrescenta, no mesmo tom: se nascer menino, que fique com ele; se nascer menina, que a exponha.

Não havia crueldade consciente nessa frase. Havia uma visão de mundo na qual o valor da criança dependia da utilidade dela.

Atenção: Ao estudar o mundo antigo, evite o julgamento fácil. Romanos e gregos não eram monstros; eram pessoas formadas por outra visão do ser humano. A lição não é desprezá-los, mas perceber quanto dependemos da visão que adotamos.

A melhor objeção: "os estoicos já não pensavam assim?"

Quem conhece filosofia antiga tem uma objeção honesta. Os estoicos falavam de uma razão comum a todos os homens. Cícero, em Dos Deveres, fala da dignidade da natureza humana. Sêneca, na Carta 47 a Lucílio, pede que os escravos sejam tratados como seres humanos e lembra que eles nasceram da mesma semente que seus senhores. Não seria, então, a dignidade humana uma herança grega e romana?

O argumento tem mérito. Os estoicos tiveram intuições profundas, e este blog bebe delas o tempo todo. Mas veja o detalhe: o mesmo Sêneca que escreveu a Carta 47 é o que menciona o afogamento de bebês fracos sem protestar. A intuição existia. Não chegou a se tornar convicção universal nem a mudar as práticas da sociedade.

Os primeiros cristãos fizeram exatamente isso. A Didaqué, um manual cristão muito antigo, ordena no capítulo 2: não matarás a criança no ventre nem o recém-nascido. A Epístola a Diogneto, no capítulo 5, descreve os cristãos como pessoas que se casam e têm filhos como todos, mas que não expõem os recém-nascidos. Em 374 d.C., sob o imperador Valentiniano I, o infanticídio passou a ser punido pela lei romana.

Da ideia à instituição

A Basilíada (c. 369 d.C.)

Por volta de 368, uma grande fome atingiu a Capadócia, região da atual Turquia. Basílio, que logo seria bispo de Cesareia, vendeu bens da própria herança para alimentar os famintos, sem distinguir cristãos de não cristãos.

Pouco depois, por volta de 369, fundou nos arredores da cidade um grande complexo de assistência, que ficou conhecido como Basilíada. Havia alojamento para pobres e viajantes, cuidado para doentes, médicos, enfermeiros e um espaço para os leprosos, que eram os mais rejeitados de todos. Seu amigo Gregório de Nazianzo, no elogio fúnebre que fez a Basílio (Oração 43), descreveu a obra como uma nova cidade. Muitos historiadores a contam entre os primeiros hospitais da história.

O fundamento era Mateus 25:40: o que fizerdes a um destes pequeninos, a mim o fizestes. Se Cristo se identifica com o leproso, o leproso tem a dignidade de Cristo.

O efeito foi tão visível que o imperador Juliano, que tentou restaurar o paganismo nos anos 360, reclamou em carta a Arsácio, sacerdote pagão: os "galileus", como chamava os cristãos, sustentavam não só os seus pobres, mas também os pobres dos pagãos. Juliano queria imitar esse modelo. Não conseguiu, porque faltava o fundamento.

As universidades medievais

O mesmo impulso chegou ao conhecimento. Se cada pessoa é imagem de um Deus racional, a razão humana merece ser cultivada. As universidades medievais nasceram nesse ambiente: Bolonha, tradicionalmente datada de 1088, Paris e Oxford no século XII, Coimbra em 1290. Eram instituições ligadas à Igreja, onde se estudava teologia, direito, medicina e artes.

Época Prática ou instituição Fundamento
Mundo greco-romano Exposição de bebês aceita Valor ligado à utilidade
Século I-II Cristãos rejeitam a exposição (Didaqué) Imago Dei
374 d.C. Infanticídio punido na lei romana Influência cristã
c. 369 d.C. Basilíada, na Capadócia Mateus 25:40
Séculos XI-XIII Universidades de Bolonha, Paris, Oxford Razão como dom divino
1948 Declaração Universal fala em "dignidade inerente" Herança dessa longa história

Dica: Para entender a dimensão dessa mudança, leia Domínio (2019), do historiador britânico Tom Holland. Ele mostra como valores que hoje chamamos de universais, como a compaixão pelo fraco, têm raízes cristãs, mesmo entre quem rejeita o cristianismo.

Por que isso importa agora?

Holland observa que vivemos em um mundo que conserva os valores cristãos, mas muitas vezes esquece de onde eles vieram. É como colher frutos de uma árvore cujas raízes ninguém mais rega.

Quando a dignidade perde seu fundamento, ela volta a depender da utilidade. E aí a pergunta antiga reaparece com roupa nova: quem merece viver, quem merece cuidado, quem conta? Esquecer a origem de uma ideia é o primeiro passo para derrubar a cerca de Chesterton sem saber por que ela foi erguida.

A mesma imago Dei sustenta a igual dignidade de homem e mulher, como discutimos em ser mulher não é competir com o homem. E sustenta também a família como lugar onde cada vida é acolhida antes de provar seu valor, tema de por que civilizações duradouras protegeram a família. Para outras reflexões assim, visite a categoria fé e civilização.

Paulo resumiu a revolução em uma frase: "não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea" (Gálatas 3:28). Não porque as diferenças desapareçam, mas porque nenhuma delas define o valor de alguém.

Resumo rápido

  • Gênesis 1:27 afirma que todo ser humano, homem e mulher, é imagem de Deus.
  • No mundo greco-romano, a exposição de bebês era prática aceita e legal.
  • Os estoicos tiveram intuições de dignidade, mas não mudaram essas práticas.
  • Os cristãos rejeitaram a exposição, e Basílio fundou a Basilíada por volta de 369 d.C.
  • Hospitais, universidades e direitos humanos são herdeiros dessa ideia.

A prática de hoje

Pense em uma pessoa que, aos olhos do mundo, "não serve para nada": um idoso esquecido, um doente, alguém que ninguém visita. Hoje, faça algo concreto por ela: uma ligação, uma visita, uma refeição, meia hora de conversa sem pressa. Não faça por pena. Faça porque ela carrega a mesma imagem que você.

Indigne-se. Depois, aja.