Vitimismo é transformar uma ferida em endereço fixo. É quando a dor, real ou imaginada, deixa de ser algo que aconteceu com você e passa a ser quem você é. O remédio não é fingir que nada aconteceu. É separar, com honestidade, o que depende de você do que não depende, e começar a agir no primeiro campo. Um ex-escravo grego ensinou isso há quase dois mil anos, e a lição continua de pé.

Por que o vitimismo parece uma virtude?

Porque ele se apoia em algo verdadeiro. A injustiça existe. Gente é ferida, enganada, abandonada. Reconhecer isso é sinal de lucidez, não de fraqueza.

O vitimismo pega essa verdade e a desvia. A dor vira credencial. A queixa vira argumento. Quem sofreu mais passa a ter mais razão. E quem pede responsabilidade parece cruel.

É por isso que ele se veste de virtude. Ele usa a linguagem da compaixão, mas produz o contrário dela: pessoas paralisadas, ressentidas e dependentes da culpa alheia para se sentirem alguém.

A melhor defesa do outro lado

Antes de criticar, é justo ouvir o argumento contrário na sua forma mais forte.

Ele diz mais ou menos isto: "Falar em responsabilidade individual é fácil para quem nunca foi esmagado. Há pessoas que carregam traumas, injustiças de origem e feridas que não escolheram. Pedir que elas 'assumam o controle' é jogar sobre a vítima o peso do crime que outro cometeu."

Esse argumento tem mérito. Ele lembra que nem todo ponto de partida é igual. Lembra que a sociedade tem deveres com quem sofre. E lembra que dizer "supere" a alguém que acabou de ser ferido é falta de caridade.

Tudo isso é verdade. Mas não resolve o problema central. Reconhecer a injustiça não exige entregar a ela o comando da sua vida. A justiça cuida do que fizeram contra você. O caráter cuida do que você faz depois. Uma coisa não anula a outra.

Atenção: vítimas reais existem e merecem amparo, justiça e, quando for o caso, tratamento profissional. Nada aqui diminui a dor de quem sofreu abuso, violência ou perda. O ponto é outro: a ferida merece cuidado, mas não deve virar identidade.

A vida de Epicteto: escravo no corpo, livre no juízo

Epicteto nasceu escravo por volta do ano 50 d.C., em Hierápolis, na Frígia, região da atual Turquia. Nem o nome dele era nome de verdade: epíktetos significa algo como "adquirido".

Ele pertenceu a Epafrodito, secretário de Nero, um dos homens mais poderosos da corte imperial. Em algum momento, o senhor permitiu que ele estudasse com Musônio Rufo, o maior mestre estoico de Roma naquele tempo.

Reza a lenda, relatada séculos depois por Orígenes em Contra Celso (7.53), que o senhor torceu a perna de Epicteto por crueldade. Epicteto teria dito, calmo: "Assim você vai quebrá-la." E quando a perna quebrou: "Eu não disse que ia quebrar?" Não sabemos se a cena aconteceu assim. Sabemos que ele mancava e que a história combina com o que ensinava.

Depois de liberto, Epicteto ensinou filosofia em Roma. Por volta de 93 a 95 d.C., o imperador Domiciano expulsou os filósofos da cidade. Epicteto perdeu tudo de novo. Foi para Nicópolis, no noroeste da Grécia, e abriu ali uma escola.

Ele nunca escreveu um livro. Um aluno chamado Arriano anotou as aulas e as organizou nas Diatribes e no pequeno manual chamado Enquirídion. Décadas depois, um imperador agradeceria por ter conhecido aquelas lições. Marco Aurélio escreve nas Meditações (1.7) que deve ao mestre Rústico o contato com os escritos de Epicteto.

Pense na cena. Um homem que nasceu propriedade de outro, mancou a vida inteira e foi exilado por um imperador acabou formando a consciência de outro imperador. Se alguém tinha motivos para se declarar vítima eterna, era ele. Ele escolheu outra coisa.

A dicotomia do controle

O Enquirídion começa com uma frase que resume quase tudo. Em paráfrase: algumas coisas dependem de nós, outras não. Dependem de nós o juízo, a intenção, o desejo, a aversão, ou seja, tudo o que é obra nossa. Não dependem o corpo, os bens, a reputação, os cargos, tudo o que não é obra nossa (§1).

Epicteto acrescenta: o que depende de nós é livre por natureza. O que não depende é fraco, servil e alheio. Quem trata o alheio como próprio vai se lamentar, se perturbar e culpar deuses e homens.

Essa última parte é um retrato preciso do vitimismo. Ele nasce quando colocamos a nossa paz inteira nas mãos de coisas que não controlamos: a opinião dos outros, o passado, o sistema, a sorte.

O que depende de mim O que não depende de mim
Como eu interpreto o que aconteceu O que aconteceu
O que eu faço hoje O que os outros fizeram ontem
Meu esforço, meu estudo, minha disciplina O resultado final, o mercado, a sorte
Pedir perdão ou perdoar Ser perdoado ou receber desculpas
Escolher minhas companhias A opinião que os outros têm de mim

Não são as coisas, são os julgamentos

No §5 do Enquirídion, Epicteto diz que não são as coisas que perturbam os homens, mas os julgamentos que eles fazem sobre as coisas. A morte não é terrível em si. Terrível é a opinião de que ela é terrível.

Isso não significa que nada importa. Significa que existe um espaço entre o fato e a sua reação. Nesse espaço mora a sua liberdade.

O vitimismo fecha esse espaço. Ele diz: "Aconteceu isso, logo eu sou isso." O estoicismo reabre: "Aconteceu isso. O que eu faço agora?"

Dica: quando perceber que está contando a mesma história de mágoa pela terceira vez na semana, pare e pergunte: "Essa história está me ajudando a agir ou só a me justificar?" A resposta honesta costuma ser o começo da cura.

Frankl: a última liberdade

No século XX, um psiquiatra judeu de Viena passou por Theresienstadt, Auschwitz e campos ligados a Dachau entre 1942 e 1945. Viktor Frankl perdeu os pais, o irmão e a esposa. Se houve uma vítima no sentido mais pleno da palavra, foi ele.

Em Em Busca de Sentido, publicado em 1946, Frankl descreve o que viu: homens que, mesmo famintos, davam seu último pedaço de pão a outro. E conclui, em paráfrase, que tudo pode ser tirado de um homem, menos a última das liberdades humanas: escolher a própria atitude diante das circunstâncias.

Frankl nunca negou o mal que sofreu. Ele o descreveu com precisão. Mas recusou que esse mal tivesse a palavra final sobre quem ele era. É exatamente essa a fronteira entre ser vítima e ser refém do vitimismo.

O que o vitimismo rouba de você

O vitimismo promete proteção. Entrega prisão. Veja o que ele cobra:

  • A ação. Se a culpa é sempre do outro, a solução também é sempre do outro.
  • Os vínculos. Ninguém aguenta por muito tempo conviver com quem transforma toda conversa em tribunal.
  • A gratidão. Quem só enxerga o que lhe foi tirado não consegue ver o que lhe foi dado.
  • O futuro. Quem mora na ferida vive de costas para o amanhã.

Ele também cobra da família. Pais que se apresentam como vítimas permanentes ensinam os filhos a fazer o mesmo. Para entender por que isso pesa tanto, vale ler sobre por que civilizações duradouras protegeram a família. E para os homens, a ligação é direta: o homem que não se governa não governa nada.

Responsabilidade não é culpa

Há uma confusão comum aqui. Assumir responsabilidade não é assumir a culpa pelo mal que outro fez. Você não tem culpa de ter sido traído. Mas é responsável pelo que fará com essa traição.

Culpa olha para trás e pergunta "quem fez?". Responsabilidade olha para frente e pergunta "o que eu faço agora?". A primeira pergunta tem lugar nos tribunais. A segunda tem lugar em toda manhã da sua vida.

O vitimismo, aliás, é primo próximo de outro mal moderno: viver preso num futuro que ainda não chegou. Os dois fogem do único lugar onde se pode agir, o presente. Sobre isso, veja ansiedade: o mal de quem vive no futuro. Outros textos sobre o tema estão em caráter e virtude.

Resumo rápido

  • Vitimismo é fazer da ferida identidade, não reconhecer que houve ferida.
  • Vítimas reais existem e merecem justiça; o caráter cuida do que vem depois.
  • Epicteto nasceu escravo, foi exilado e escolheu ser livre no juízo.
  • A dicotomia do controle (Enquirídion, §1) separa o que é seu do que é alheio.
  • Não são as coisas que perturbam, mas os julgamentos sobre elas (Enquirídion, §5).
  • Frankl mostrou que, mesmo quando tudo é tirado, resta escolher a atitude.

A prática de hoje

Pegue uma folha de papel. Escreva no topo uma situação que hoje faz você se sentir injustiçado. Divida a folha em duas colunas.

Na coluna da esquerda, escreva "Depende de mim". Na da direita, "Não depende de mim". Liste tudo o que vier à cabeça, sem filtro. Depois risque, sem dó, a coluna da direita. Ela é real, mas não é sua tarefa.

Agora escolha um único item da coluna da esquerda. Um só. Algo que você pode fazer antes de dormir. Faça. Amanhã, repita com outro item.

A liberdade de Epicteto não veio num dia. Veio de um juízo de cada vez.

Indigne-se. Depois, aja.